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Mares revoltos


  

 

Fragmentos de um poeta

Sim. 

Eu bem sei.

Escrevi o que não devia.

Revelei o que não queria.

Expus o mais íntimo sentimento.

Tropeçei.

Cai de cara no chão.

Minhas mãos machucadas tingiram de vermelho o papel branco onde lhe escrevia.

Dizer mais o que?

Contar mais o que?

Que o sangue não estanca?

Que a dor não se tornará branda?

Que o risco de morrer é mais intenso?

O sangue escorre pelo papel.

Respinga o chão.

Anestesia o próprio tempo.

Como se pudesse pará-lo.

Voltar atrás.

Recomeçar.

Do nada.

E nada sendo, nada tendo, ser tudo.

Ser todos.

Ser muitos.

Ser todos os sonhos que você sonhou um dia.

Ser todos os desejos que você nunca me contou.

Minha cabeça lateja.

A distância é tão grande e minha alma cansou.

Sentou no meio fio.

Não quer mais ir ao seu encontro.

E essa dor que não passa.

E essa febre que aumenta.

A noite escura não abriga mais meus sonhos.

O vento parou.

Não mais levará meus versos até você.

Parou o vento.

Parou o tempo.

Minha cabeça lateja.

Meu corpo dói.

Não tenho mais forças para esperar por você.

E disso você nunca saberá.

De mim jamais encontrará outra história.

Outro verso.

Outra rima.

Tudo se desfaz.

O que sou.

O que fui.

O que tenho.

E nada tenho.

Nem a saudade restou.

Só essa dor que não passa...... 



Escrito por Ádina às 23h03
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